Benção do Peregrino

A benção do peregrino de Santiago remonta aos tempos mais antigos e pode ser solicitada a qualquer pároco e em qualquer igreja. Sempre que parto para uma peregrinação e, na minha fé em Cristo, solicito ao padre da minha residência a benção.

Oração simples: Benção do Peregrino

“En nombre de Nuestro Señor Jesucristo, recibe este morral hábito de tu peregrinación para que castigado y enmendado te apresures en llegar a los pies de Santiago, a donde ansías llegar, y para que después de haber hecho el viaje vuelvas al lado nuestro con gozo, con la ayuda de Dios, que vive y reina por todos los siglos Amén.

Recibe este báculo que sea como sustento de la marcha y del trabajo, para el camino de tu peregrinación, para que puedas vencer las catervas del enemigo y llegar seguro a los pies de Santiago y después de hecho el viaje, volver junto a nos con alegría, con la anuencia del mismo Dios, que vive y reina por los siglos de los siglos Amén”

Destaque ao hábito ou forma de “ser e estar” no caminho como peregrino, às fases de uma peregrinação, com o cuidado do retorno e o báculo ou cajado com a utilidade de defesa e suporte.

Reflexões de um Peregrino

A Peregrinação pode ser abordada e vivida com entusiasmo, estudada e experimentada e numa aprendizagem importa reflectir algo sobre o assunto.

A religião, na sociedade moderna ocidental, aparentava estar em declínio nos hábitos da vida social, nas últimas décadas do século XX, e os rituais religiosos contemporâneos ressurgiram num ambiente que escapou ao controlo das Igrejas oficiais.

As mudanças sociais, económicas, culturais e ambientais fizeram surgir um retorno ao sagrado, onde “o sagrado e profano” coabitam e compartilham a atenção de todos. A magia do sagrado criou expectativas e emergiu atitudes à racionalidade dominante com reconfigurações religiosas no mundo ocidental. A modernidade combina crenças, mitos, memória religiosa herdada, racionalidade e novos modelos de simbologias. Assim, um aparente declínio do universo religioso, configura dando anúncio à permanência das igrejas cristãs tradicionais. Aparecem então novas religiões não cristãs, novas seitas, novos movimentos religiosos, dando uma paisagem religiosa mais imaginativa e mistura místico-esotérica. No mundo ocidental proliferam movimentos para-religiosos, para-científicos e filosóficos e com contornos emergentes de interpretação individual, subjectivos e privados.

Os ritos continuaram a apresentar-se como um fenómeno universal, a manifestar-se quer nas sociedades tradicionais como nas mais evoluídas tecnicamente e, as comunidades necessitam preservar os rituais seculares e mesmo religiosos.

O rito é definido como um conjunto de gestos, atitudes e comportamentos corporalizados e que não necessita de ser compreendido intelectualmente. No cristianismo os ritos de passagem são frequentes e muito procurados como o baptismo, o casamento e o funeral. A prática religiosa na qual se inclui a missa nem sempre desperta a atenção das comunidades, contudo a religiosidade popular como as romarias e peregrinações ressurgiram. O pontificado de João Paulo II ficou bem conhecido pelas sucessivas peregrinações e beatificações de heróis populares como os pastorinhos de Fátima.

Quem apreciou as manifestações inerentes às peregrinações como Fátima, identificou indivíduos e grupos com um conjunto de práticas e gestos que envolvem obrigatoriamente o corpo e dimensões sensoriais ou afectivas.

A peregrinação obriga à saída do lugar-comum e a uma deslocação a um lugar sagrado, onde o percurso como conceito “de caminho”assume o papel primordial e secundariza a meta de chegada.

O peregrino pode ser identificado como uma figura de religioso em movimento com percursos espirituais individuais sem obrigação doutrinária nem rigidez de dogma e em prática festiva.

Em Portugal as peregrinações a Fátima continuam a ser uma prática comum que atravessa o domínio privado e público, não é específico do mundo rural, nem de indivíduos pouco escolarizados ou de classes sociais baixas. Constata-se nas peregrinações tanto a Santiago de Compostela como a Fátima, indivíduos dos mais variados estratos sócio-culturais e de meios diversos, rurais ou urbanos. As motivações dos peregrinos-caminhantes são afirmadas como decisões individuais sem interrelação habitual com as paróquias ou igrejas. O peregrino demonstra uma auto-realização voluntária individual, transitória e mística. A idealização utópica de um mundo imaginário, perfeito, de bondade e de amor é frequentemente transmitida como um desejo de encontro da religião ou igreja universal

A peregrinação pode ser reconhecida como uma religião em movimento, publicamente visualizada, exteriorizada, privada ou individual sem obrigatoriedade a uma instituição religiosa.

Credencial do Peregrino de Santiago

Credencial do peregrino

A Credencial é um documento de identificação do Peregrino no Caminho, emitido por uma entidade idónea e creditada, onde consta os dados pessoais do mesmo, o local de partida, a data da mesma e o modo como se realiza a peregrinação ( a pé, de bicicleta, ou a cavalo ).
A origem deste documento remonta às “cartas de apresentação” e “salvos-condutos” da idade média e que concedia alguns privilégios ao Peregrino, habitualmente emitidos por entidade eclesiástica.

Este documento “CREDENCIAL DO PEREGRINO DE SANTIAGO” já existe em português, é pessoal e intransmissivel, tem um modelo oficial para Portugal, com a chancela eclesiástica de D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Hispânias (depósito legas 308739/10) e corresponde ao modelo da Associação Espaço Jacobeus.

A Credencial é como um passaporte ou bilhete de identidade do individuo em marcha, estando identificado o peregrino de uma forma sóbria, localizando a sua origem e ponto de partida, a via utilizada e não dando qualquer direito acrescido. A finalidade deste registo é simples:

  1. Acesso aos Albergues de Peregrinos que eventualmente se apresentem no caminho e que oferecem hospitalidade cristã;
  2. Acesso à rede de Pousadas da Juventude (em Portugal), substituindo o cartão de Alberguista;
  3. Local de aposição de carimbos ou “sellos” dos locais por onde se caminha, postos de turismo, albergues, cafés, policia, restaurantes, estabelecimentos comerciais, Igrejas, Posto de Correios, Protecção Civel e outros;
  4. Permite solicitar no final na Oficina do Peregrino em Santiago  a “Compostelana ou Compostela”.

A “Compostela” é um outro documento de registo oficial, emitido pela Oficina do Peregrino, concedida a quem efectua a peregrinação em sentido cristão, tendo as suas origens aos tempos imomeriais da idade média (Século XV). Pressupõe-se uma viagem espiritual como uma jornada ao interior de si mesmo, onde fruto das circunstâncias do quotidiano abrangente da sociedade de consumo ocorre uma fuga, uma abstração de nós mesmos.

Para obter a Compostela o peregrino tem de comprovar através da sua credencial ter percorrido pelo menos os últimos 100 km a pé ou a cavalo, ou os últimos 200 Km em bicicleta.

A Credencial tem de ser carimbada ou “sellada” duas vezes por dia, seleccionando-se albergues, igrejas, postos de turismo, postos de policia, autoridades da protecção civil, Confrarias, hoteis, pensões, restaurantes, cafés, estabelecimentos comerciais, enfim entidades que testemunhem o mero acto de peregrinar, indicando a data, e a chancela de carimbo assinado. Torna-se engraçado constatar a construção de carimbos ou “sellos” alusivos com simbolos ou marcas do Caminho de Santiago nos estabelecimentos espanhois. Em Portugal escasseia o hábito e muitas vezes nem ocorre em locais oficiais como postos de turismo a presença de um carimbo disponível.

Um aspecto essencial a reter no valor da credencial, é muito pessoal, é válida apenas numa peregrinação, comprova-nos e recorda-nos por onde passamos, o que aconteceu aqui e acolá, por vezes tem marcas do caminho, gotas de água, alguns resticios e cheiros da própria mochila, vincos do nosso corpo, enfim um registo essencial e muito íntimo..

Para obter a credencial existem regras a cumprir e que podemos satisfazer sem grande dificuldade no site na secção credencial: https://acaminhodesantiago.wordpress.com/2008/04/04/a-credencial-do-peregrino/

O documento recente é bonito e aprazivél, deve contemplar pelo menos dois carimbos por dia no minimo, mas só tem a capacidade de espaço de 40 carimbos, revelando-se insuficiente para quem deseje completar trajectos muito longos como de Lisboa a Santiago. A primeira vez que fiz a Peregrinação levava uma carta de apresentação de um Pároco que anunciava as minhas intenções cristãs da mesma. Tanto Credencial como carta de apresentação foram devidamente carimbadas ou selladas. No final a Compostelana comprovativa e um conjunto de lembranças e experiências que jamais olvidarei..

Provas do Caminho a Iniciar o Peregrino de Santiago

Provas do Caminho a Iniciar o Peregrino de Santiago

Existem numerosos escritos de peregrinos que ensaiaram estas vias que descreveram provas ou iniciações. A primeira vez que se faz o caminho de Santiago somos muitas vezes apelidados de “iniciados”, sendo este termo um apelativo a alguém que começou algo. Ao recordar os tempos de estudante, recordo ter iniciado por diversas vezes percursos nos vários ciclos, graus e escolas. Ao iniciar a peregrinação vi renascer um desejo, um sentimento em aprender e adquirir aptidões e evoluir para enfrentar a vida.

A mística deste percurso tem sido muito explorada por indivíduos apelidados de esotéricos, identificando múltiplos sinais e provas, desvirtuando ou omitindo o sentido cristão da mesma. O sentido religioso do peregrino em caminho tem de ser acompanhado de atenção às forças actuantes, onde a pessoa ensaia a busca, a procura do real e do simbólico. Como peregrino constato o Caminho de Santiago também como uma via iniciática e quando atravessamos os seus trilhos, as suas vilas, as suas estradas, as suas rotas estamos efectivamente a ser iniciados.

Universalmente, são identificados quatro elementos que servem de “provas”: FOGO; TERRA, ÁGUA E AR. Estes quatro elementos têm a sua origem no mundo ocidental na antiga Grécia, nos filósofos pré-socráticos, e podem ser encarados como as essências fundamentais à vida humana.

Cada um destes elementos corresponde a energias a adquirir, e trazem ao iniciado capacidades.

O FOGO corresponde ao impulso, ao vigor, à força, à vitalidade, à capacidade de liderança e à iniciativa.

A TERRA dá-nos o suporte, a segurança, a prosperidade e a casa mãe.

A ÁGUA atribui-se a limpeza, a purificação, a capacidade de amar, as emoções, as intuições e a própria fé.

O AR evoca a inteligência, a criatividade, a saúde e a espiritualidade.

As provas dos elementos não são previsíveis e ocorrem espontaneamente sendo só mais tarde reconhecidos. Eu próprio, como peregrino, fui submetido aos elementos e ainda me pergunto se efectivamente aprendi.

A prova do Fogo surgiu numa das etapas em que o astro rei (SOL) primou e me bateu forte, queimando a pele e ressurgindo as assaduras desencadeadas pela sudação e fricção do andar.

A prova da Terra ocorreu quando o piso térreo me deixou os pés mesmo sujos de barro e quando escorreguei involuntariamente e me encostei ao chão.

A prova da Água sucedeu na última etapa ao receber a chuva de mil céus que me deixaram molhado até aos extremos. Também reconheci o elemento água que me caía nas frontes das árvores gigantescas que me adornavam o trajecto e que me afagavam o esforço.

A prova do Ar sobreveio na chegada a Santiago quando as pernas me tremeram, os olhos se inundaram de lágrimas e pensei desfalecer.

Estas indicações merecem apenas uma reflexão de quem quiser aprender a laborar algo mais dentro de si e obter uma evolução do deu espírito ou alma.

Como iniciado e eterno peregrino sugiro um exercício espiritual muito simples:

Antes de partires, Peregrino, escreve a ti próprio uma carta, onde colocas as tuas mágoas, os teus mêdos, as tuas pênas, as tuas frustrações, enfim o que quiseres e por favor desabafa cordialmente contigo mesmo. Preenche um envelope e coloca no marco do correio para a tua residência.. Nunca mais abras esta carta, quando regresses provavelmente já te espera a tal carta. Vai a uma praia e queima essas mágoas, essas tristezas que te afogavam o prazer de viver.. Este exercicio muito simbólico deve ser reservado ao teu intimo e privacidade… Depois, das cinzas voarem com o vento, pára por breves instantes e “curte” o momento… Nunca mais te vais esquecer deste conselho dum vulgo e humilde peregrino

Graças adquiridas por fazer a Peregrinação a Santiago

Graças adquiridas por fazer a Peregrinação a Santiago

Na história do Caminho de Santiago e na descoberta do sepulcro de Tiago Maior, encontramos a origem dos eventuais motivos e razões dos primeiros peregrinos no século IX e, do seu maior esplendor nos séculos XII e XIII com numerosas gentes em procura destas vias santas.

Hoje em dia somos confrontados com peregrinos a este local de todas as nações, de todos os credos, agnósticos, ateus e livres-pensadores, de todos os estratos sociais, das mais variadas culturas e todos, todos sem excepção, com a ilusão de reencontrar algo.

Para ser peregrino, requer fazer a peregrinação com algum espírito ou crença, identificando variadas motivações, com especial ênfase no acreditar na razão prosaica da fé em Cristo, na sua ressurreição e no mandamento novo:

“Amai-vos uns aos Outros, assim como Eu vos Amei” João 13,34.

A peregrinação à Catedral de Santiago pode ser feita a pé (por excelência), de bicicleta ou de cavalo, concede ao peregrino um documento apelidado de “Compostela”ou “Compostelana”.

A Compostela é um diploma datado de origem do século XV que confirma ao peregrino execução da peregrinação, identificando no papel timbrado da Arquidiocese de Santiago, tendo o interessado de apresentar na Oficina de Acogida del Peregrino de Santiago de uma credencial. A credencial ou documento semelhante (carta de pároco que confirma a identidade do peregrino e sua origem) corresponde a uma espécie de passaporte que permite ao peregrino pernoitar nos albergues de suporte ao caminho, além de ser o local de registo ou de confirmação de sítios percorridos através dos carimbos ou “sellos”, comprovando de ter executado no mínimo dos últimos 100Km, caso tenha feito a peregrinação a pé.

Desde 1119 foi instituído uma graça especial pelo Papa Calixto II aos peregrinos no apelidado Ano Santo Compostelano. Ano Santo Compostelano corresponde ao ano em que o feriado de S. Tiago (25 de Julho) recai num Domingo, facto ser nesse dia que as relíquias do santo parecem ter sido encontradas ou eventualmente corresponder ao dia do martírio do Santo. Os anos santos têm recaído em alguns anos bissextos, foi decretado a primeira vez em 1300, sendo a relação dos anos comemorados nos séculos XX e XXI respectivamente: 1909, 1915, 1920, 1926, 1937, 1943, 1948, 1954, 1965, 1971, 1976, 1982, 1993, 1999, 2004, 2010, 2021, 2027, 2032, 2038, 2049, 2055, 2060, 2066, 2077, 2083, 2088, 2094.

As graças especiais concedidas no ano Jacobeu são as chamadas indulgências, graças espirituais ou perdões dos pecados e são procuradas com fervor pela generalidade dos peregrinos.

Alguma História do Caminho de Santiago

Alguma História do Caminho de Santiago

A história do Caminho de Santiago foi-me contada de muitas formas e, qual a mais fantasmagórica, com detalhes da morte do discípulo de Cristo, Tiago Maior decapitado e tendo o privilégio de ser o primeiro apóstolo a dar o sangue pela fidelidade ao Salvador.

Diz a lenda que o corpo de Tiago foi transportado por dois discípulos, Atanásio e Teodoro, numa pequena barca que miraculosamente da Palestina, ou melhor de Cesareia, local de sua morte, veio até às terras da Galiza. Continua a lenda que a barca chegou a Iria Flávia, onde foi amarrada a uma coluna de pedra que aparentemente ainda existe e pode ser visitada, pelo peregrino por detrás do altar da Igreja de Santiago na cidade de Padrón.

Mas a história persiste, com uma altercação com uma rainha Lupa que disponibilizou dois toiros selvagens para o transporte do corpo. Os dois discípulos, na sua boa fé enfrentaram um dragão, que derrotaram com o sinal da cruz e amansaram os toiros. A rainha Lupa converteu-se e concedeu-lhes local para o sepultar do apóstolo mártir. O monumento funerário caiu no esquecimento durante séculos e apenas no ano 813 ou 814 um eremita Pelayo tem uma visão de uma luz no bosque de Libredón acompanhada de cânticos celestiais.

Pelayo alertou as autoridades eclesiásticas e o próprio Rei D. Afonso II, rei das Astúrias, se desloca ao local, onde foi descoberto túmulo de três campas que deduzem ser de S. Tiago e dos dois discípulos Teodoro e Atanásio.

O local, desde cedo se tornou meta de peregrinação e, a influência protectora do Santo tornou-se mais convincente no ano de 842, ao milagrosamente dar suporte às forças cristãs contra os muçulmanos na batalha de Clavijo, aparecendo como um ícone de Santiago Matamoros (mata mouros).

Carlos Magno apaixonou-se pelo local de peregrinação e deu significado à visão do caminho das estrelas no céu, dando ênfase ao simbolismo da Via Láctea, como trajecto a percorrer e a libertar do domínio sarraceno até às relíquias do Santo. 

Compostela vem da etimologia latina Campus Stellae, com aparente origem no sonho de Carlos Magno, Campo das Estrelas, ou caminho da luz.

Nos séculos XI, XII e XIII o fluxo migratório a Santiago foi imenso e identificam-se três centros mundiais de peregrinação cristã: Jerusalém, Roma e Compostela.

A terminologia Jacob e Jacobina deriva da origem hebraica do nome Tiago que sofreu a tradução para o latim Jacobus ou Iacobus, visto o som do J ou do I ser o mesmo. A expressão Sanct´Iacobus ou Santo Iago deu origem à palavra Santiago.

Torna-se interessante, observar o mesmo termo Tiago traduzido em inglês para James e em francês para Jacques e mesmo os Jacobinos protagonistas da revolução francesa receberem este nome pelas suas reuniões num velho mosteiro Dominicano situado na Rua Saint Jacques em Paris.

Mais recentemente, o Papa João Paulo II foi o primeiro Papa a peregrinar a Santiago em 1982, em 1985 a Unesco declara o Caminho como “Património da Humanidade” e pouco depois recebeu o título “Primeiro itinerário cultural Europeu”.

Conceitos de trekking, pedestrianismo e caminhadas

Nesta descrição de uma aventura torna-se lícito explicitar algumas reflexões sobre o que cada um de nós pode esperar com a maturação do ser humano. O indivíduo com mais idade não é um velho, mas sim alguém que atingiu um nível de experiência e aprendizagem a ser valorizado. A generalidade dos homens e mulheres que atingem uma certa idade diminuem a sua actividade mental, física e de relação, tornando-se naquilo a que vulgarmente chamamos “velhos”. Tal como Dante expressava na “Divina Comédia”nos primeiros versículos, no meio da minha existência decidi aprender de novo, exercitar o meu corpo de acordo com as limitações próprias do momento, aprofundar a leitura e fundamentalmente comunicar com o mundo circundante.

Tal como a criança de tenra idade aprende e exercita a sua eventual autonomia, procurei a marcha ou o andar a pé como ponto de partida para esta aventura.

Um dos desportos mais aconselhados, para indivíduos jovens e menos jovens, gordos e magros, sãos de espírito e físico ou mesmo doentes em reabilitação, sempre foi “a marcha ou caminhada”.

O contacto com a natureza foi sempre uma das formas de acalmar a mente e instruir o corpo e, isso também foi bem reconhecido em formas de estímulo de engrandecer o espírito humano. Desde a antiguidade o exercício físico foi encarado como essencial na formação do ser humano e este esforço dinâmico no ambiente natural foi alvitrado como desejável. Algumas orientações a reter para o bom caminhante residem em ensinamentos do próprio Platão, salientando que o movimento deva ser uma constante da vida e que a imobilidade total não faz parte da natureza, levando o exercício à libertação dos medos interiores. Alguns autores especialistas de desporto recomendam que os balanços do corpo, com ou sem o esforço próprio, exercem sobre o homem uma acção revigorante como o passeio ou caminhada.

Sobre o assunto marcha e caminhadas surge sempre um conjunto de termos e conceitos em voga, nos tempos actuais que são o trekking, caminhada e pedestrianismo.

A caminhada embora aparenta ser sinónimo de trekking ou tradução do termo anglo-saxónico, pressupõe sempre um regresso no dia ao ponto de partida para passar a noite. Trekking ou travessia é um termo de origem sul-africano, derivando do trek que implica dormir fora, num abrigo ou tenda, aparentando algo do nómada. No trekking o indivíduo segue um trilho, sem escalar, nem alpinismo, ocorre apenas o simples caminhar.

Pedestrianismo é a actividade conhecida mais básica e ao ar livre, tendo sido praticada no Ocidente e no Oriente desde a Antiguidade, individualmente ou em grupo, sendo caracterizada pelo andar a pé, com motivações de ordem vária ou a mera contemplação dos campos ou natureza. No pedestrianismo a dormida em improvisos de abrigo natural ou construído, albergue ou bivaque (tenda pequena) pressupõe uma autonomia de trekking de vários dias.

Este desporto (pedestrianismo) não é competitivo, nem agressivo, pratica-se com poucos custos económicos, sem grandes exigências materiais, concilia o convívio familiar e de amigos, permite alguma fuga à rotina, ao stress, ao urbanismo, aproxima as pessoas, e promove o mais simples e primário da existência humana como a Natureza e o mundo rural. Quem se inicia nestas coisas do caminhar estabelece amizades e intercâmbios culturais, sendo frequente a identificação de grupos de amantes deste desporto. Também, poderemos garantir que ao praticar esta actividade, o meio ambiente assume um valor patrimonial, com a observação da flora e da fauna e a sensibilização do indivíduo e dos grupos para a riqueza incontestável dos recursos naturais e sua preservação.

Como me tornei peregrino?

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No meio da minha vida fui confrontado por um familiar na sua reabilitação pós acidente de viação em que viu a morte por perto com a necessidade de peregrinar a Santiago de Compostela.

Interpretei o seu desejo de peregrinar a Santiago como uma promessa ou agradecimento pelo bom termo acontecido. Para mim peregrinação até então correspondia a sacrifício ou penitência e nesse sentido compartilhei o desejo com o meu familiar. Com o desenrolar dos acontecimentos e enfrentando uma preparação para essa aventura tomei conhecimento que peregrinar é algo mais do que mero martirizar o corpo para purificar a alma.

Peregrinar encontra origens nos tempos mais remotos do ser humano, fruto da sua condição de procura de melhores lugares, fruto da condição nómada do conhecimento que o ser humano expressa no seu desenvolvimento e maturação. Peregrinar e peregrinação são relatados em muitos lugares, em todas as religiões, credos ou acreditares. Reconhecemos o desejo de ir mais além e para cima (Ultreia et Suseia) em todos os continentes e identificamos locais eleitos em montanhas, rios, selvas ou mesmo mares. Assim, fui reconhecendo que a peregrinação nada tem a ver exclusivamente com o mar de gente que se dirige anualmente a Fátima,  manifestando uma grande fé. Também o panorama relatado por Paulo Coelho no seu livro Diário de Um Mago me pareceu muito transcendental e esotérico. O peregrinar e fazer o Caminho é descrito como um conjunto de provas nos rituais Maçónicos e como um ultrapassar a si próprio no trajecto descrito por JoseMaria Escrivá na obra “El Camino”, fundador do Opus Dei.. Também o Taoismo na doutrina de Lao Zi (600 anos AC) como princípios filosóficos de caminhante, caminhada e caminho..

Peregrinar é um fenómeno identificado em todas as culturas e sociedades e era definido como um despojar do térreo ou material, um abandonar a sua casa ou ocupação habitual e partir em direcção a um local que considera sagrado.

Individualmente ou em grupo, seres humanos foram reconhecidos em deslocação, em caminho para locais predestinados, onde eram executados rituais religiosos. Os locais ou metas de peregrinação podiam ser montanhas, rios, cidades, templos, lagos e mesmo o mar. Desde tempos imemoriais reconhecemos alguns locais famosos como sagrados, como a cidade de Meca na Arábia Saudita, o rio Ganges na Índia, o Monte Sinai no Egipto entre outros.

Também podemos confirmar no nosso meio próximo outros lugares que mereceram a atenção e foram eleitos como metas de peregrinação como Lourdes, Fátima, Sameiro, São Bento da Porta Aberta, Peneda, Abadia e tantos outros.

Para Dante o conceito de peregrino pode ser entendido como o homem que se sente estrangeiro, que está de passagem até um local ideal. Simbolicamente este homem errante demonstra a transição do momento ou situação, a sua indiferença em relação ao presente e uma vontade em atingir uma natureza superior. Também a peregrinação está ligada a ideias de purificação e de expiação e pressupõe alguma castidade na viagem, ultrapassando provas de resistência e de despojamento.

Antropologicamente a peregrinação reconhece rituais de passagem, onde o indivíduo pretende ultrapassar categorias ou níveis de forma a reunir-se a outros parceiros.

Na peregrinação identificamos três estádios:

  • a partida ou separação da rotina da existência, casa, família, afazeres;
  • a viagem ou tempo de percurso, como a transição;
  • o regresso, onde o peregrino retoma a sua vida, o quotidiano, mas engrandecido com a experiência adquirida.

Universalmente, a saber que as gentes que caminham em peregrinação recebem três nomes se procuram locais diferentes: Palmeiros, se vão a Jerusalém, pois traziam as palmas das palmeiras que eram símbolos da sua caminhada, Romeiros se vão a Roma, donde os termos romarias ou acto de ir a Roma, Peregrinos se vão à Galiza, pois atravessam o campo (per + adro) e porque foi aqui que foi sepultado mais longe da sua pátria do que outro apóstolo, o Santo eleito (Tiago Maior).

Como iniciado e após ser Peregrino poderei comentar que o Caminho é um conceito profundo, símbolo de humanidade, misterioso, admirável, demonstrando ao interveniente no processo, homem ou mulher, o carácter mutável da própria vida, a inquietude do ser e o transcender-se a si mesmo.

Enquanto peregrino do Caminho de Santiago, identifiquei um local muito especial, carregado de história, especialmente intenso e luminoso, aparentando irradiar uma paz a quem chega, comove, sensibiliza, alegra e faz chorar, engrandece o amor fraterno e pelo Mundo, inesgotável e aberto a todos os credos e crenças ou religiões.