Eu vi árvores tão altas

Eu vi árvores tão altas..
Lembro e recordo, fartos momentos, laicos atrozes tempos.. Era eu menino de fraca estatura, magro e franzino, e imaginem, brincava.. Brincava só e por vezes de pouca companhia, sem ser o vento, a água das chuva, o Sol e alguma solidão.. Aprendi a destrinçar pássaro, aves canoras, e de médio porte… Aos pombos cativava e lhes dizia, sei que tu és fêmea e tu um belo macho.. As rolas essas ronronavam, elas em par passeavam por ali e me cativavam com um breve olhar.. Alguns insectos, aranhas, sapos, rãs e lagartixas, por vezes cobras que todos temiam e eu nem fugia.. Num ermo local de meu fascínio, me cativava e a minha mãe pedia.. deixa-me ir brincar para a Quinta.. Quinta, tinha coisas como tanques, flores, culturas, agricultura e mato.. Tinha animais e minerais, plantas e muito mais.. Espíritos fugidio, me pareceram ouvir e nunca os vi, mas sei que “eles” andavam por ali e até me protegiam.. Nesse local de magia, de esperança e sonho.. havia árvores tais.. Umas pequenas e outras tão altas, eram mundos de desafio.. A essas árvores, umas figueira velha de bons figos, nogueira antiga de frutos em crise, plátanos, nespereira e Oliveira.. Tudo árvores de casca rija e muito desafio.. Pois, a elas subi, me arranhei e nelas descobri mundos do alto com mistério.. Ninhos com ovinhos, passarinhos e mais.. Foi nessas árvores que vi folhas novas nascer, vi esmorecer e amarelecer as folhas de um novo Outono, vi adormecer troncos e alguns se partir e morrer.. Vi nessas mesmas árvores castelos, igrejas, torres e mundos de fantasia.. Subir às árvores tem um fascínio que hoje ensino meus netos e deixei filhos por ali subir e ver o que nem se pode ver sentado ou deitado…
São as árvores do meu encantamento..

Riodão4

Quantos Mares…

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Quantos mares..
Ele há tantos mares, tantas terras e quantos ares.
Este mundo vive entre a terra, céu e o mar,
mas sei que tudo depende da sorte..
Gosto do nosso porte,
somos pequenos,
sempre nos deitamos a menos.
Tanto sabemos, somos audazes
e nem sempre somos capazes..
Ele há tantos como nós,
mas Nós,
somos assim mesmo,
do tempo dos nossos Avós,
somos mesmo desta sorte..
Gostamos do mar, gostamos da terra e das gentes..
recebemos com pouco e da alegria fazemos uma festa..
Meninos fomos e somos,
velhos nem sei se seremos,
e nem sabemos já quantos somos..
Ouvimos prelos, galos, gatos e gente de outra sorte
e mesmo acossados,
sempre damos e dados.
Aliados, temos e esses mesmos nos roubaram,
temos inimigos que mais nos deram..
Nunca esquecemos, nunca olvidamos,
as preces e as rezas,
adoramos as mulheres e aos homens..
Dizem que somos machistas, mas tanto gostamos
dar piropos que nos querem tirar esse real gosto e ripostamos..
Amamos e gostamos de ser amados..
Temos capacidades de improviso,
no nosso pessimismo e sorte,
sempre altruistas,
sempre reservamos
o melhor pano e ralho
para alguém que nada tem..

Metas de um Caminho…

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As metas de um Caminho..

Homem sou semelhante a tantos outros e sou.. A meta de uma peregrinação poderá ser a razão, poderá ser o motivo, nem sei o que será, porém será a meta de uma peregrinação.. Santiago, Fátima ou outro ponto será..

Cada peregrino estabelece as suas metas, os seus desafios, selecciona trilhos, escolhe a sua senda de caminho. Santiago talvez deste ponto de partida, de Portugal, de França ou Espanha.. Fátima, quem sabe talvez, por devoção, por emoção, .. eu nem sei porquê, mas sei porque não…

A meta conheço. de um ponto escolho também a partida e de algo me despeço e nunca esqueço.. A experiência, o remate, o foco de uma meta conheço, um verdadeiro desafio e tentação.. Será que consigo, será que farei bem.. Os dias vão passando e tanto vou ultrapassando, ora me dando, ora recebendo.. O caminho me instruí, e nem destruiu.. O meu olhar o mundo se vai modificando, os problemas vão como que minguando, a meta.. essa vai aparecendo e assomando.. O próximo, o companheiro vou encontrando e dialogando, e nem sei como as metas se vão desvanecendo, porque nem metas são, são marcos e história.

Vejo alguns companheiros rezando, de terço na mão, acreditando piamente estar a falar com alguém.. O meu culto e reza, preza ser menos ser tão ofegante, talvez menos crente ou religioso.. Sei e sempre soube que algo me acompanha, e com esse eu falo… Nem sei se será Deus, Alá ou outra divindade material ou apenas existente no meu imaginável.. Sei que no caminho a sinto e com Ele tanto reclamo, tanto refilo e recebo um silêncio, aprovador ou reprovador, nada me critica, nem pune.. Aceita o meu suar, o meu digo sofrer de querer lá chegar..

Sei que neste caminho vou pensando, vou analisando o meu percurso de ser humano.. Nasci, cresci e amadureci, talvez envelheci, temo a dor, sofro muito com a dor, reconheço a prática de tentar aliviar e dar…  Interrogo-me.. o que quero afinal, como que quero, as dimensões da minha vida simples de um herói sem batalha ou torpe, mas sei o que sou.. peregrino em Caminho vou..

Tanto quero e nem mais quero, estudos, trabalho, família, amigos, inimigos, comunidade, terra te quero, me questiono uma e outra vez.. porquê….

Metas tantas encontro, aquela subida íngreme, a sombra e a fonte desejada.. Encontro-me com meus semelhantes e vejo alguns em autênticos prantos..  Aprofundo no meu intimo, relembro ensinamentos de antepassados, reconheço que sou ainda quase criança no saber de conhecer e ser..

Cada dia que passa sinto que metas ultrapassei, algumas sem saber, outras reconheço.. As metas de uma peregrinação são destacadas e inimagináveis.. É o terror de querer lá chegar e dizer.. Amar..

 

Dificuldades e medos de Peregrino..

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Quantos medos, quantas dificuldades senti..

Fui uma e outra vez de peregrino, e fui.. Quantos receios, quantos medos no fundo eu senti.. O caminho nem sempre quão fácil parece, se desvanece em mais de mil dores, de bolhas, de coisas na nossa cabeça, no nosso corpo e afim.. Músculos, pele e ilhargas, costas, ombros e tantas partes do nosso corpo escondido e nem previsto, nos assola e diz.. afinal porque estás aqui???

Por vezes sentimos a tentação de desistir e ir, terminar sem concluir, mas que medo, mas que tonto receio.. desistir sem conseguir chegar.. Afinal, mais uma subida, uma descida, uma árvore, uma casa, uma palavra de alguém e a sorte da partilha e da gratidão de pensar e dizer.. Porque não….??

As minhas agruras, as minhas mágoas, os meus desejos e ensejo, tanto depositamos num projecto de ir e voltar e nos entregar ao mero caminhar… Será que a vida é assim tão fácil, desistir, será que poderemos lutar, vencer, ser heróis sem ser mártir..

Os dias que ultrapassamos nem são tão fáceis, como desbravamos, como pesquisamos e vamos.. Eu vulgo mortal, sem capacidades especiais de atleta, de cavaleiro, de guerreiro, nem soldado, apenas e só.. humano.. As intempéries de um momento se revelam fortes e fracas, capazes de nos destruir um projecto nem tão sublime, mas farto de sonho, de imaginação, ou de ilusão..  por vezes ouvimos falar e lemos de peregrinos caídos, de gente que perdeu a vida, que adoeceu e nem venceu, e nós com medo, com tantos receios, poderemos…??? Há dias assim, fáceis e difíceis, mas na nossa cabeça está uma ilusão ou desilusão, a minha vida é…

O peregrino é assustador, inquieto, saudoso, por vezes crente, outras vezes temente, clemente.. Ser um peregrino é uma tentação de caminhar, parar para descansar, confraternizar, mas temos de continuar.. A estrada, o trilho, como que alguém nos espera.. A nossa sombra, a nossa esperança, a futura crença…

Quantas vezes pedi e roguei a quem, “Não me deixes desistir…”  Cada um de nós reage de maneira diferente, e o caminho, passa pela gente.. Reagi um dia assim, noutro dia também quiz, uma vez consegui e outra nem sei se vou…

Familiares me olham, uns com orgulho, outros com temor, receio, e eu que me posso.. enfim perder..

Eu, aceito, com humor, com tranquilidade, a vida, o caminho e a sentença.. caminho e gosto do andar, gosto de partilhar, de amar e ensinar, escrever e vos dizer.. Eu também tenho medo Senhor…

A coragem que sinto, a estima que aprecio nos companheiros, vos digo.. Obrigado Amigos, sei que vamos conseguir e mais uma vez ir…

Não sei se o sou,porém sei quem sou. Por palavras simples me apresento e vos dou. Sou quem sou..

Quero e vou, por isso sou peregrino…

Poema ao vento..

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Chorai olhos..
Os meus olhos choram,
Os meus olhos sentem,
tristeza, alegria e emoção..
Porque choram os meus olhos,
e por vezes tanto choram..
Vi sofrimento, ouvi lamento,
talvez quebrei quebranto..
Mas, porquê meu Deus,
porquê tanto sofrimento..
Ouvi gente em lamento,
em reclamo e tanto pranto..
Ai gente, que hei-de eu fazer
como hei-de me conter, neste canto..
Sei que sofro e disso lamento,
mas nego manter este quebranto.
Nego e assumo dar luta,
dar entusiasmo e força,
à minha gente..
Das lágrimas brotaram esperanças,
talvez mais de crenças,
Nas palavras nem me contenho e tenho
Assumo o papel de guerreiro, de cavaleiro,
sem espada, mas tenho a pena,
Vos escrevo este feitiço, e grito
de alma e coração ao vento,
chega de tanto sofrimento…

Auto de Fé.. Peregrinar..!!??

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Havia um tempo em que tribunal ou Santo Ofício condenava e punia..

Havia um tempo em que se pensava que o sacrifício libertava e dava. Nesse mesmo tempo se dizia que para viver e ter se tinha de sobreviver.. Esse tempo era o tempo dos medos, dos juízos, do princípio e do fim, Alfa e Omega.. Se ameaçava com o fogo supremo, a besta, e se punia, castigava e mais do que sofria.. A vida nem sei o que tinha, pois se morria quase antes que se nascia. Quem ia e vinha, viajava, se escondia e mais do que ia..

Mas, havia um tempo que se punia com mais do que caminho, se dizia vais e tens de desafiar, de eventualmente sobreviver, porém o mais certo é morrer e nem renascer.. Havia quem ia e nem sempre se sabia o que acontecia. Se contavam lendas, se escreviam Diários, provas e conquistas, medos e padecimentos.. Afinal, a vida se dizia era um caminho e talvez seria..

Peregrinos se juntavam aos centos, todos de certa forma condenados, uns com culpa, outros sem qualquer horror ou crime. Que coisa fantástica que magia se avinha de ir por trilhos e veredas, enfrentar agruras, frio e calor e aventura..

Reconheço que ao fim de tantas milhas passadas e o fenómeno de grupo, entre chagas e dores se imaginava e dizia.. “auto de fé..”

Na verdade quem condenava, sabia que na prova de ferro e fogo, de mal e sofrimento, adivinha imaginação e alívio.. Quase eleição,

Muitos dos actuais peregrinos se sentem pecadores e no meio das suas dores encontram alívio ou isenção do que se acham e são. Peregrinos não são condenados, e o Caminho nem é a vida ou a morte.. Peregrinar é uma forma de se elevar e caminhar, se puderes no teu caminho passar sem sofrer, melhor do que mostrar cicatriz, poderás aprender..

A peregrinação não é uma condenação, nem será uma libertação, poderá ser uma tentação, um absorver a tua atenção e até poderás nem sobreviver… A peregrinação não tem uma justificação, é sempre um momento de meditação, de curtição, de alívio, de desafio, de encontro e reencontro.

Muitos dos fundamentalistas da crença e da virtude da religião se atrevem ainda a condenar todos à penitência pública, acusando-nos de tudo e até de heresia. Apelo a atenção a rituais de humilhação nos relatos precisos de encontrar libertação numa peregrinação.

Uma das formas de fugir ao controlo, à censura por parte da religião é reflectir, é pensar no que queremos ou não encontrar numa peregrinação.  Quais os nossos sonhos, quais os nossos anseios, esperanças,. A procura da verdade não pode admitir a tortura do corpo e da mente, ultrapassando o paradigma da espiritualidade no alegre convívio e infortúnio de nascer, partilhar e partir..

Peregrinar é apenas um conjunto de etapas, de evolução, de pesquisa e estudo, de contemplar, reflexionar e também pensar…

 

Na minha terra..

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Na minha terra..
Na minha terra há casas brancas, há montes e nem tantas serras.. Na minha terra chove, faz Sol e passa tanto vento.. Entre sobreiros, azinheiras e outros, distingo farto castanheiro, carvalho e algum sequeiro.. O trigo jovial por vezes na seara e entre papoila, trevo e malmequer, distingo abelhas e zangãos.. As gentes, essas a quem distingo e lhe aporto “boas”, as convido com um sorriso..
Mas, na minha terra também há desgraças, doença e morte.. Há quem sofra e gema, há quem enriqueça e tema.. Tanto há na minha terra que me doem as entranhas de ver criança sofrer, de mulher perdida com dor no seu ventre e homem cabisbaixo de sua vida tão triste e sem eira.. Seja Verão, seja Inverno se sente calor e frio, se toma com gosto uma boa palavra de esperança, de compaixão e de coração.. Como gente que também sou desta terra vos venho partilhar um gosto, um amor e vos dizer… “gosto tanto da minha terra e da minha gente…”
Sempre escrevo e abafo a tristeza, sinto e perfilho um gosto, um sorriso.. Por isso peregrino e caminho, sem nada pedir e tudo aceitar, dos campo floridos, das terras áridas e com pedras, vos aclamo da planície ou estepe ao monte, da foz do rio à nascente, do velho moinho, do forno quente dos cheiros de amor e conforto.. Recomendo cheira o teu pão quente, cheira o vinho novo e a aguardente, repasto solo de pouco manjar, um pouco de mel ou melaço.. Leite fresco, manteiga e azeite, entre uma tisana ou café.. Saboreia nesta terra uma conversa em casa ou no café.. Saúda e te sente saudado.. Aceita o sem abrigo, o senhor agente e quem sabe o Ti Joaquim que a Ti Ana tudo sabe e se lembra da tua gente.. A minha terra é a tua por isso te dou e presto um sorriso.. Boas meu Amigo e neste fim de tarde seria bom reviver e sentir o teu e o meu renascer de esperança e crença no Além…

a vida nos dá e nos tira..

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Um dia nasce e vira..

Uma noite renasce e cura, alguém surge nas nossas vidas e nem sei a vida te dá e te tira,

A regra e ordem nos transparece e tece, o que amo perco, o que esqueço, nem me lembro, qual testemunho e farto momento que nem alento..

O prazer e encanto de um momento sei que nem sempre dura, mas este momento é efectivamente este momento.. O nascimento que momento, o casamento. o revejo e sinto este maior momento.. Quem sente e se cura, dura, quem finda e pura, finda e parte..

A roda de uma vida tem movimento, evolução e doação.. Sem alegria e tristeza, nem sinto a aspereza da via, mas dispenso a chaga e a maleita ou sofrimento..

Na religião encontro sustento, nem fanatismo, nem soberba ou guerra.. A elevação de uma oração a partilho com qualquer credo ou religião e a todos lhes peço paz e união..

Tenho amores, tenho odores, pecados nem os esqueço e a todos peço perdão.. Numa peregrinação, encontro mais do que devoção, no suor algum sustento, o desespero alento.. Para a frente sempre tento e a todos digo.. Obrigado meu irmão…

A vida é apenas um momento…

Um dia assim…

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Um dia assim..
Um dia chovia, chovia,
que nem se via..
Passei por uma Igreja,
e sem que ninguém me veja,
entrei de mansinho,
disse em surdina e baixinho,
Amém…
Despi o meu gibão, me descobri,
e reconheci,
altar, cruz e mais Santos vi..
Num banco corrido me sentei,
até ajoelhei, rezei..
Conversa fiz com alguém,
nem sei com quem..
Senti a minha respiração,
ressenti o pulsar do meu coração..
O momento nem feio, nem bonito,
foi um dia assim dito.
Entre chuva, alegoria e mistério,
alegria, conforto e..