Caminhos..

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Caminhos..

A vida tem o que nem todos sabem e vêem.. Caminhos os há por aqui e por ali e desde meninos nem os vemos.. A um Anjo se lhe pede protecção a menino, mas sabemos que tão maus caminhos os há e houve.. A guerra, a injustiça, a falsidade, a fome, a tortura, a safadeza.. desperta tão maus trilhos de encontro e desencontro.. O que a vida nos dá, um afago de pai e mãe, um conforto e um beijo de avô e avó.. Um tio aventureiro que elucida de que cor é o céu e a terra.. A escola, os colegas, .. as saudades, as paixões, o crescer, o perder e o ganhar.. Quem nem se apaixonou e sofreu dessa mesma, quem se iludiu com um sonho de ir e conseguir.. O desfrutar, o gozar e embriagar, o festejar.. Quem nem adoeceu, nem nem sofreu ferida e corte, quem nem teve a febre e a calura de quem nos tratou e curou.. A fantasia e o sarcasmo, a reza, a magia, o odor, o descobrir e os sentidos apurados estimulados.. Fui príncipe, rei, mago  e soldado, astronauta, polícia, bombeiro e ladrão.. Fui sem abrigo, roto e descalço, esquecido, perdido.. Atravessei deserto, floresta, bosque, mar e lago.. Ultrapassei Evereste, serra e monte, Fui alpinista, escritor, poeta e cantor.. Tantos caminhos fiz e descansei, cansei e me tornei assim mais calado, agoiro e saudoso, de lágrimas e sorrisos, despertei atenção e fui acalentado com palmas e carinhos em dias de anos, em dias de festa… Perdi saudosos avós, pais e amigos.. Sofri e sei que fiz sofrer, acalentei e aliviei, fui ajudado e ajudei a ultrapassar entre a vida e a morte um momento em que nem matei, nem assassinei, mas amparei e sorri,.. rezei e até pedi, roguei aos Santos, à Virgem, a Jesus e a quem.. recebe esta alma e me ampara também…

Caminhos de glória, caminhos de felicidade e de infelicidade… Sofri bicada e beliscão, roseiras me deram agoiro e pedras agruras.. Caminho este de fim e sertão, de luz e mais do que glória… Caminhos de solidão de companhia e amizade…

O caminho que procurei nem sei se ainda o desbravei ou sei, mas reconheço, de felicidade teimo vencer as infelicidades, nado em águas doces e salgadas, de correntes, águas sãs e revoltas,de ondas e mais do que agruras.. Este desbravar de teimo e rogo, me faz por vezes praguejar, me faz perder o tino, mas em juízo próprio asseguro nos ensinamentos antigos experimentados pelos egrégios avós, de imensas leituras, estudo e pesquisa… Canto e oro, medito e espero, esperança encontro em recanto, partilho o que tenho e nem peço, tudo aceito e sempre, sempre adoro o sorriso de um dia a trás de outro.. Nas noites acalento o sonho, descanso e na insónia rebelde.. olho a beleza de minha esposa e me reconforto de ter por companheira tal amor, amizade e alma gémea.. Filhos e netos os tenho e temo nem transmitir a felicidade de os ver nascer, crescer e vencer..

Aos Santos, a São Francisco de Assis, meu Santo devoto, recebo inspiração e na cruz Tau, me ajoelho, acolho ensinamentos, em esforço e repouso, em choro e perdas, em conquistas e sortes o que a vida de caminhos me reserva e dote..

Saudades, muitas saudades tenho e quero ir de novo ao meu Caminho…

Viva o Caminho, Viva a Glória, Viva Maria, Viva Jesus e viva quem vier por bem e em paz do Senhor…

Pés de Peregrino

Os pés, base fundamental do ser humano, na história ouvimos falar dos persas como alguém que tinha “pés de barro”… Aos jovens lhes ensinamos que têm de ter os pés na terra, talvez porque pensamos que todos os temos, porém tantos vejo que nem têm pés…

Amanhã, sempre um novo dia e uma nova forma de aprender a andar.. Eu gosto de ver os meus pés, olho e revejo o que me é permitido ver, pois para andar a pés temos de aprender a preservar a base do caminhar… As unhas, as pregas, as calosidades, as marcas e cicatrizes de “acidentes de percurso”, gosto de mostrar os meus pés, que por vezes necessitam de cuidados especiais, lavar, secar e hidratar, vezes e vezes sem conta procedimentos regulares de vulgar caminheiro…

Aos mais idosos recomendo que nunca esqueçam o que os seus pés andaram, aos jovens digo poupem esses pés para chegar a velho a andar, ao caminheiro e peregrino lhes lembro cuidados vários… Pele, ossos, articulações, musculos e até sentimentos pelos pés não pejorativos mas de base…

Com que idade se pode fazer o Caminho de Santiago…

Fui questionado por um bom amigo “qual a idade para fazer o Caminho??”

Muitos se interrogam se ainda são capazes, outros dizem que aquilo não é para crianças…

Será que podemos chegar a um consenso.. a uma partilha de opiniões com trajectos já feitos e por outros perspectivados.. eu fiz o caminho já adulto e várias vezes, partilhei o trilho com amigos e familia mais jovens e mais velhos… Crianças vi, idosos e bem idosos, adolescentes, homens, mulheres.. em todos reconheci sensibilidade, amor, emoção.. medos e franqueza de o dizer…

A idade do caminho é avançada e muitos há que querem ir por lá, uns vão a pé de bike de cavalo e em jipe sofisticado com pernoita em paradores e SPA de tudo já vi.. A ideia de peregrino se destrinça de turigrino.. Um turigrino tem muito a ideia de fazer um pouco a pé e andando e no final se diz .. eu fui peregrino… Um peregrino parte de um ponto que pode ser a sua porta do seu domicilio, ou um local emblemático escolhido, pressupõe deixar confortos, deixar a família, deixar aspectos profissionais arrumados, também já os vi peregrinos a resolver negócios em trilho… Um peregrino abdica de confortos vários, mesa, cama e roupa lavada… um dia vai e apanha sol, outro chuva, nevoeiro e até beleza de encantar e espantar… A idade tem importância pois obriga a maturidade de sentidos, a presença afectiva, espiritual e atlética.. Quem caminha de peregrino sofre sempre interpéries, mazelas e aprende sempre.. Recomenda-se maturidade a quem quer ser peregrino de Santiago e muito bom senso..

No caminho conheci companheiros de muitas idades e eu próprio também evoluí no tempo da minha existência… Uma vez vi uma família composta por um casal e uma criança de berço, iam de carrinho de bebé.. impressionou-me os cuidados daqueles dois adultos com o seu rebento, iam e andavam, a todos sensibilizou o andar em família e em glória chegaram.. Não os invejei, mas me disponibilizei a ajudar se precisassem…

Um dos trilhos que fiz conheci um idoso suiço, homem bem entrado na idade, caminhava com dois bastões, sóbrio no contacto, mas afável, num dos cascos urbanos de uma vila me obriguei a procurar um sitio para o pobre descansar, pois estava derreado… Em Santiago, o reconheci nas ruas e apresentei minha família como se um amigo de longa data nos conhecesse-mos, isto é a magia de um trilho que prezo…

Não tenho ideia qual a idade com que se pode fazer o caminho, porém resguardo algum cuidado no preparar, no estudar e aprender a reconhecer as capacidades de cada um e do grupo envolvido..

Sugiro, reunam alguns amigos que prezem fazer um trilho único, preparem-se e partam à aventura com confiança e fé, pois o trilho de Santiago tem tanto a dar como a aprender quem o faz, o fez e quer continuar a fazer…

Caminho Português de Santiago

Caminho Português de Santiago

Os itinerários de acesso a Santiago são muitos, transparecendo que as vias de comunicação medievais assentavam na necessidade de pequenas deslocações.

O desenho de um verdadeiro itinerário foi surgindo com destaque ou apoio de locais de paragem e descanso, casas de pasto, albergarias e hospitais. Em todos os trajectos são reconhecidos conventos que davam a tão desejada ajuda espiritual, física e psicológica.

Carlos Magno estimulou muito a peregrinação ao sepulcro do Apóstolo Tiago e deu origem ao caminho francês que obriga a muitos dias de marcha desde a longínqua França até ao Templo no norte da Galiza.

Em Portugal o culto de Santiago encontra-se difundido por todo território e há invocações ao Apóstolo em muitos locais, assumindo fundamentalmente duas imagens ou ícones de representação, ora como peregrino ora como guerreiro.

Santiago peregrino é afigurado como um pobre, sobriamente vestido, identificado com um chapéu de aba larga, com um cajado ou bastão, e com sinaléticas inconfundíveis de peregrino de Santiago, a vieira e a cabaça.

Santiago guerreiro é representado como um cavaleiro, aparentando um porte majestoso e senhorial, mostrando também a sinalética vieira e denominado “Mata-mouros”.

Em Portugal, a peregrinação a Santiago nunca deu origem a um caminho unificado semelhante ao caminho francês, porém a via Lisboa-Valença com passagem por Santarém, Tomar, Coimbra, Porto, Barcelos ou Braga e Ponte Lima parece reunir um consenso de uma via possível e ancestral.

O Caminho Português pode ser reconhecido como uma rota de peregrinação a Santiago, tendo sido usada por italianos, portugueses e árabes, identificando-se personagens ilustres que optaram por esta via como conde D. Henrique (1097), Rei Sancho II (1244), conde D. Pedro (1336), rei D. Manuel I (1502), Rainha Santa Isabel (1325), Giovanni Batista Confalonieri (1594) que acompanhou desde Lisboa o representante papal, Léon de Rosmithal (1466), Nicolau Popplau (1484), Nicola Albani (1745).

Em 1138 encontramos uma das mais antigas referências ao Caminho Português na obra do geógrafo árabe Idrisi que descreve os caminhos de Coimbra para Compostela, por mar e por terra.

Como peregrino, posso testemunhar que somos confrontados com múltiplos sinais da peregrinação a Santiago inerentes ao culto, onde a “vieira ou concha de peregrino”, símbolo mariano, assinala a direcção do caminho e identifica o próprio peregrino. Em todos os trajectos a figura de Maria, mãe de Jesus, e Mãe de todos nós, aparece nos cruzeiros, nas ermidas, nos conventos e nos santuários das cidades.

No Caminho Português encontra-se uma das igrejas mais emblemáticas que testemunham o culto mariano, em Pontevedra, onde se identifica uma dos pouco templos católicos circulares, em forma de concha e, não em forma de cruz latina como habitual, corresponde à Igreja da Virgem Peregrina.

Bolhas nos Pés do Peregrino

Pés a quanto obrigas…
Os pés são a principal base de suporte do corpo.  Qualquer peregrino sabe que após uns quilómetros com maior vigor ou não, no inverno ou verão são os pés que reclamam a sua atenção. Um dos rituais muito conhecidos em alguns albergues do Caminho Francês e mesmo em Fátima é a célebre lavagem dos pés.. Também o poeta João de Deus tem um poema que salienta a importância dos pés e dos seus cuidados.
Qualquer um de nós reconhece duas funções distintas naqueles que são os nossos pés:
uma estática (quando estamos parados em pé apoiados ou não),
– outra dinâmica (quando andamos,portanto em movimento).
A função estática proporciona uma distribuição do peso do corpo e que se faz sobre os próprios pés. Qualquer individuo após umas horas de marcha tenta suportar-se nos seus pés.
A função dinâmica muito mais complexa porque engloba um estudo da mecânica dos pés e de todo o corpo numa ciência denominada  Biomecânica.  Esta ciência, biomecânica, estuda as forças envolvidas no caminhar, correr, saltar, ou peregrinar a pé..  Ao andar também procuramos amortecer as pressões que chegam ao pé e nem sempre assumimos posturas correctas, obrigando a esforços e agressões de outras estruturas do corpo como por exemplo os joelhos.
Assim podemos reconhecer nos  pés  uma estrutura fundamental para todo o corpo, proporcionando uma interacção do corpo com o solo e com o meio, podendo mesmo condicionar o sermos capazes de executar os desafios a que nos propusemos. Aconselha-se a qualquer peregrino identificar sinais e sintomas de que algo não está bem nos seus pés, directamente nos tais apêndices nem sempre valorizados, que eventualmente têm odores próprios e são a razão da marcha que adquirimos quando criança.
As Bolhas
Um peregrino só se apercebe tardiamente da formação da bolha e em geral ficam muito admirados como aconteceu. A bolha surge porque houve atrito entre pés, meias, calçado e o solo. É mais frequente nas regiões em que o osso sobressai, como nos calcanhares, na fase anterior plantar do pé e nalguns dedos.  A bolha é uma camada de pele que se destaca (por causa da fricção) e enche-se de líquido, geralmente transparente tipo água. Se algum vaso sanguíneo é lesado nesse processo traumático então temos a presença de sangue.
Reafirmo que sofri vezes sem conta deste padecimento, “ai bolhas, terror de qualquer peregrino” como lhes fazer frente:
Selecionei dois niveis de prevenção:
1º Nivel:
A pele é uma estrutura complexa, com regeneração automática, mas com regras a respeitar…  Quando queremos que a pele dos nossos pés resista ao traumatismo de fricção, sudação, aquecimento, eventualmente inflamação e ruptura temos de preparar a estrutura. A pele dos pés tem uma camada plantar habitualmente mais resistente, mas com limites e o calçado deverá ser adequado ao tamanho do pé, aos movimentos, ao piso escolhido, à estação do ano e aos desejos do peregrino.
Numa primeira fase temos de conhecer os nossos pés, fazer uma impressão plantar usando tinta não tóxica e de fácil lavagem pode parecer infantil, porém revela-se esclarecedora onde está as fraquezas do nosso descontentamento.
Todos os dias os pés devem ser lavados, massajados, secos e hidratados.. As unhas limadas, com atenção aos limites ungueais, e pedir ajuda a um podologista será fundamental, pois é o profissional mais habilitado a orientar o peregrino com os seus pés.
Assim, escolher um calçado adequado, ténis, bota de caminhada ou sapato de caminhada, oferece a oportunidade ao peregrino preparar também esse artefacto fundamental. Umas botas ou ténis da melhor marca mas “novos” proporcionam o pior andar ao pobre peregrino iludido nas propriedades apostas na marca do calçado. Não esquecer comprar um ou dois números acima do habitual, pois os pés vão “inchar” com a carga que lhes vamos impor. Fazer a rodagem do calçado, andar uns bons quilómetros, também já ouvi quem compra umas botas de caminhada e faz a rodagem nos centros comerciais, enfim é necessário dar forma e fôrma ao calçado.
Outros conselhos neste nível são não lavar os pés com água muito quente na hora da largada, e se lavar, secar muito bem, usando até papel higiénico para uma secagem eficaz..
Lubrificar depois com um creme, pode ser vaselina esterelizada, creme gordo, mas não “forrar” os pés de creme. Basta uma camada fina e não esquecer entre os dedos.
Também importante a seleção das meias ou peugas… As meias de algodão com as costuras para fora, estão perfeitamente ultrapassadas pela facilidade em adquirir meias de caminhada adptadas à estação do ano. No inverno de um tipo e no verão versões “cool”. Existem marcas brancas relativamente baratas. Não usar meias velhas e desgastadas…
Se tiver planeado mais de 20 Km de etapa, mudar de meias com obrigatório secar os pés… A prevenção pode salvar uma peregrinação.. Em princípio o desistir a meio traz muita frustração ao peregrino e deve ter atenção a cuidados básicos. Pés, meias, sapatos…
2º Nivel:
O peregrino inicia a caminhada e a pele dos pés começa por ficar avermelhada tipo queimadura de frição, segue-se a formação da vesícula com mais ou menos líquido…
Antes de ulcerar e deixar o peregrino “a pé e parado” há de tomar iniciativas..
Após alguns quilómetros de marcha o pé sua, aquece e inflama.. Se sentir algo incómodo, não adiar, ir ver sempre o que se passa… Pode ser uma pedrita, uma planta que pode agravar uma lesão em origem..
Assim, após algum tempo de caminhada, parar, descalçar o “artefacto- ténis ou bota” retirar a meia e ver, inspeccionar.. Pedir ajuda a um companheiro de jorna.. Cheirar mal dos pés não é grave, mas ulcerar é muito grave..
Se estiver apenas vermelho, usar as tecnicas universalmente recomendadas, lavar, secar e hidratar…
Deixar o pé respirar, usar uma sandália ou chinelo por momentos..
Depois calçar sempre depois de hidratar convenientemente…
Se houver uma bolha… Inspecionar o conteúdo, se é um liquido transparente (é o habitual), se é sangue ou se é puz..
A presença de sangue ou de puz exige os cuidados de um profissional de saúde..
Se for liquido transparente tipo água, dimensionar a bolha.. Se for de pequena dimensão, desinfectar com água ou soro, secar e aplicar um penso adequado tipo “compeed” com um tamanho à respectiva bolha.. Claro que esta estratégia é adequada após descanso dos pés e antes de calçar.
Se a bolha é média a grande dimensão, há a necessidade de drenar o liquido. Usar então uma agulha esterelizada com linha também esterelizada. Adquire-se seda de sutura de feridas que vem em embalagem esterelizada.
Pode parecer dificil ,mas é muito simples, pica-se a bolha após desinfecção exterior, e faz-se um laço, ficando um parte da alça de “seda” dentro da bolha e outra fora. Isto funciona como um dreno mantebdo o esvaziar da bolha. Depois de algum tempo aplicar um penso “compeed” e calçar. Não deve introduzir qualquer desinfectante dento da bolha, nem álcool, nem “betadine”, nem nada.. Deve deixar o organismo reponder à agressão e colaborar.. Os fios de “cozedura de Bolhas” devem caír por si, não necessitando outros cuidados além da desinfecção.. Não retirar a pele da bolha, respeite o seu corpo não o mutile..
Material para Bolhas:
– Água, soro, desinfectante tipo betadine (se não fôr alérgico);
– Creme hidratante, ou mesmo vaselina;
– Seda de Sutura, à venda nas casas de material cirurgico;
– Pensos “compeed” anti bolhas de pequena e media dimensão.

Preparação para o Caminho de Santiago

Alongamentos – fonte: http://www.caminhodesantiago.com/walter/treinamento.htm

A preparação para o peregrino é algo simples, mas que deve merecer a preocupação de quem pretender vencer essa prova. Como peregrino assumido, defendo a peregrinação como um gesto voluntário, sem promessa interiorizada, sem crendices, magias ou outra coisa de transcendental, sem martírio e mágoa ao próprio, nem como acto de sacrifício ou purificação. Peregrinar, traz alegria, emociona a quem pretender alcançar algo, define, clarifica objectivos ou metas, amadurece e engrandece o ser humano pela experiência vivida. Ainda hoje me comovo ao ver e recordar as memórias das minhas surtidas de peregrino, e sinto-me tocado ao reconhecer companheiros de jorna.

A preparação do peregrino pode ser abordada em três perspectivas: física, psicológica e espiritual.

A preparação física obriga o indivíduo a adquirir capacidades em termos articulares, musculares, metabólicos, cardio-respiratórios e gerais. Será conveniente uma visita ao médico de família, identificando problemas de saúde que mereçam especial atenção. Sobre os músculos, articulações e aparelho cardio-respiratório, nada melhor que adquirir um conceito de treino e manutenção da forma física adequada à idade, aos antecedentes e limitações existentes e tonificação muscular. A peregrinação pode ser a ocasião para adquirir hábitos e estilos de vida saudáveis, como o deixar de fumar, de beber exageradamente e o aprender a ultrapassar stress sem assumir comportamentos pouco saudáveis. O andar a pé é um conjunto de gestos naturais que adquirimos desde tenra idade, reconhecendo a idade dos 12 meses como o início de uma marcha direita ou bípede própria do ser humano. Com o desenrolar dos anos constatamos que na era moderna o ser humano restringiu os trajectos pedestres a meras deslocações sem grande esforço. Para um eventual peregrino tem de se habituar a andar durante horas e em distâncias não habituais no quotidiano, utilizando as capacidades adquiridas. Recomenda-se uma preparação gradual de caminhar diariamente pelo menos uma hora/dia e ir aumentando até a um limite estipulado de 6 a 9 horas. Qualquer esforço de marcha deve obrigar a alongamentos dos músculos em exercícios simples dos quais destacamos em quadro anexo.

As lesões mais frequentes do peregrino em marcha são as tendinites, as “assaduras” e as bolhas dos pés. O treino músculo tendinoso engrandece as capacidades do indivíduo, mas importa referir que qualquer actividade pode estimular qualquer para a vida. Aconselha-se manter actividade física e mental a todos, pois acredita-se ser uma das formas de melhorar a qualidade de vida e prevenir doenças ou males como o envelhecimento precoce, a demência e o próprio cancro.

A preparação da pele deve ser uma das preocupações do aprendiz de peregrino, com a lubrificação adequada e resistência e elasticidade conveniente. Recomenda-se cuidado de hidratação das virilhas e das zonas de fricção com um creme gordo disponível em qualquer supermercado ou farmácia.

Os pés merecem uma atenção muito especial:

1º – Todos devem observar os pés, com atenção à face plantar e unhas;

2º – Mergulhar os pés em água quente com sal, nos dias anteriores à partida;

3º – Secar bem os pés e amaciar com creme de ureia a 30% (existe no mercado formas galénicas equilibradas e de compra livre) as zonas de maior preensão como o calcanhar e face anterior dos pés;

4º – Cortar as unhas ou limar, recomendo os préstimos de algum podologista com a antecedência considerada conveniente;

5º – Lubrificar as pregas e os espaços interdigitais com creme gordo ou vulgar vaselina esterilizada; há quem use vick vaporub (“mezinha de caminheiro”), pois através das suas essências de mentol, canferol e eucaliptol dão a sensação de frescura e lubrificação;

6º – Lavar frequentemente os pés, secar e hidratar sempre bem.

Como peregrino e estimulando a preparação fisica devemos recordar que num trajecto de vários dias é importante equacionar o complemento da mochila de transporte dos recursos básicos de suporte (roupa, objectos de higiene, saco de dormir, e outro material). A mochila condiciona o equilibrio, retarda a marcha, diminui a passada e é causa de muitas algias de caminheiros de longo curso. O peregrino tem de treinar com e sem mochila, e com mochila vazia e com alguma carga.. Recomenda-se cuidados especiais a “encher” a mochila e numa selecção criteriosa do que é realmente essencial para uma jorna de vários dias num mundo habitado e civilizado como os Caminhos de Santiago.

Marcha com Bastões

Muitos peregrinos usam dois bastões e muitos se perguntam a sua utilidade..

“Marcha com Bastões” (Pole Walking ou Pole Striding) ou Caminhada Nórdica remontam aos anos de 1930, onde esquiadores se treinavam no Verão para no inverno utilizar juntamente com os esquis. A marca com bastões demonstra ser algo diferente da caminhada clássica, exigindo algum treino e hábito, denotando por quem a utiliza alguns benificios fisicos. Existem também bastões com amortecedores incorporados que aliviam o caminheiro nos desníveis dos trilhos no entanto essencial o treino com todo esse tipo de material.

O uso do bastão de caminheiro ou vara é algo diferente, símbolo clássico do peregrino, remonta à própria benção em que o mestre de culto cita “recebei este báculo que afasta os perigos que se vos adivinham”. Habitualmente uso um bastão de madeira, com uma ponteira de aço, com o meu nome gravado, pesado e suporte das minhas provas, quando parado, dando compasso à passada, identificando a minha localização pelo toque, apaziguando as minhas dores, dando-me força.

A preparação psíquica nem sempre é valorizada ou encarada como necessária, contudo qualquer pessoa predispondo-se a peregrinar, ausenta-se do seu ambiente habitual, do seio familiar, dos seus afazeres e das suas rotinas. Assim, preconiza-se que o futuro peregrino programe a ausência, prepare-se para se afastar, previna os seus entes queridos para uma aventura, distinta de férias, trabalho ou afazer.

Alguns princípios da meditação de tradição budista podem ser ensaiados. O peregrino tem um passado, presente e futuro que deseja sempre controlar e por vezes, a “atitude controladora” impossibilita o alívio do sofrimento, das dores de alma, da raiva, das mágoas da vida e da incerteza e incredibilidade da mortalidade do ser.

A imponderabilidade da vida transmite inquietude e dor e leva o individuo a apreciar a sua existência como pouco gratificante. Propõe-se que um potencial caminhante de uma jorna de peregrinação, pare, isole-se um pouco, omita por momentos o passado, deixe o controlo do futuro e assuma o momento presente como um “estar bem, ser feliz e sentir paz.”

A preparação espiritual é muito enaltecida pelos crentes e cultivadores daquilo que chamamos religião. O Caminho de Santiago tem uma forte influência da religião católica, na fé em Cristo e na Virgem Maria, mas deixo ao critério a quem quiser a definição de credo ou motivação espiritual numa eventual peregrinação.

Na minha preparação espiritual individual peço a bênção de peregrino ao pároco da minha residência, acalento e medito cm leituras da Bíblia, e de algumas citações e pensamentos universais.

Benção do Peregrino

A benção do peregrino de Santiago remonta aos tempos mais antigos e pode ser solicitada a qualquer pároco e em qualquer igreja. Sempre que parto para uma peregrinação e, na minha fé em Cristo, solicito ao padre da minha residência a benção.

Oração simples: Benção do Peregrino

“En nombre de Nuestro Señor Jesucristo, recibe este morral hábito de tu peregrinación para que castigado y enmendado te apresures en llegar a los pies de Santiago, a donde ansías llegar, y para que después de haber hecho el viaje vuelvas al lado nuestro con gozo, con la ayuda de Dios, que vive y reina por todos los siglos Amén.

Recibe este báculo que sea como sustento de la marcha y del trabajo, para el camino de tu peregrinación, para que puedas vencer las catervas del enemigo y llegar seguro a los pies de Santiago y después de hecho el viaje, volver junto a nos con alegría, con la anuencia del mismo Dios, que vive y reina por los siglos de los siglos Amén”

Destaque ao hábito ou forma de “ser e estar” no caminho como peregrino, às fases de uma peregrinação, com o cuidado do retorno e o báculo ou cajado com a utilidade de defesa e suporte.

Credencial do Peregrino de Santiago

Credencial do peregrino

A Credencial é um documento de identificação do Peregrino no Caminho, emitido por uma entidade idónea e creditada, onde consta os dados pessoais do mesmo, o local de partida, a data da mesma e o modo como se realiza a peregrinação ( a pé, de bicicleta, ou a cavalo ).
A origem deste documento remonta às “cartas de apresentação” e “salvos-condutos” da idade média e que concedia alguns privilégios ao Peregrino, habitualmente emitidos por entidade eclesiástica.

Este documento “CREDENCIAL DO PEREGRINO DE SANTIAGO” já existe em português, é pessoal e intransmissivel, tem um modelo oficial para Portugal, com a chancela eclesiástica de D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Hispânias (depósito legas 308739/10) e corresponde ao modelo da Associação Espaço Jacobeus.

A Credencial é como um passaporte ou bilhete de identidade do individuo em marcha, estando identificado o peregrino de uma forma sóbria, localizando a sua origem e ponto de partida, a via utilizada e não dando qualquer direito acrescido. A finalidade deste registo é simples:

  1. Acesso aos Albergues de Peregrinos que eventualmente se apresentem no caminho e que oferecem hospitalidade cristã;
  2. Acesso à rede de Pousadas da Juventude (em Portugal), substituindo o cartão de Alberguista;
  3. Local de aposição de carimbos ou “sellos” dos locais por onde se caminha, postos de turismo, albergues, cafés, policia, restaurantes, estabelecimentos comerciais, Igrejas, Posto de Correios, Protecção Civel e outros;
  4. Permite solicitar no final na Oficina do Peregrino em Santiago  a “Compostelana ou Compostela”.

A “Compostela” é um outro documento de registo oficial, emitido pela Oficina do Peregrino, concedida a quem efectua a peregrinação em sentido cristão, tendo as suas origens aos tempos imomeriais da idade média (Século XV). Pressupõe-se uma viagem espiritual como uma jornada ao interior de si mesmo, onde fruto das circunstâncias do quotidiano abrangente da sociedade de consumo ocorre uma fuga, uma abstração de nós mesmos.

Para obter a Compostela o peregrino tem de comprovar através da sua credencial ter percorrido pelo menos os últimos 100 km a pé ou a cavalo, ou os últimos 200 Km em bicicleta.

A Credencial tem de ser carimbada ou “sellada” duas vezes por dia, seleccionando-se albergues, igrejas, postos de turismo, postos de policia, autoridades da protecção civil, Confrarias, hoteis, pensões, restaurantes, cafés, estabelecimentos comerciais, enfim entidades que testemunhem o mero acto de peregrinar, indicando a data, e a chancela de carimbo assinado. Torna-se engraçado constatar a construção de carimbos ou “sellos” alusivos com simbolos ou marcas do Caminho de Santiago nos estabelecimentos espanhois. Em Portugal escasseia o hábito e muitas vezes nem ocorre em locais oficiais como postos de turismo a presença de um carimbo disponível.

Um aspecto essencial a reter no valor da credencial, é muito pessoal, é válida apenas numa peregrinação, comprova-nos e recorda-nos por onde passamos, o que aconteceu aqui e acolá, por vezes tem marcas do caminho, gotas de água, alguns resticios e cheiros da própria mochila, vincos do nosso corpo, enfim um registo essencial e muito íntimo..

Para obter a credencial existem regras a cumprir e que podemos satisfazer sem grande dificuldade no site na secção credencial: https://acaminhodesantiago.wordpress.com/2008/04/04/a-credencial-do-peregrino/

O documento recente é bonito e aprazivél, deve contemplar pelo menos dois carimbos por dia no minimo, mas só tem a capacidade de espaço de 40 carimbos, revelando-se insuficiente para quem deseje completar trajectos muito longos como de Lisboa a Santiago. A primeira vez que fiz a Peregrinação levava uma carta de apresentação de um Pároco que anunciava as minhas intenções cristãs da mesma. Tanto Credencial como carta de apresentação foram devidamente carimbadas ou selladas. No final a Compostelana comprovativa e um conjunto de lembranças e experiências que jamais olvidarei..

Conceitos de trekking, pedestrianismo e caminhadas

Nesta descrição de uma aventura torna-se lícito explicitar algumas reflexões sobre o que cada um de nós pode esperar com a maturação do ser humano. O indivíduo com mais idade não é um velho, mas sim alguém que atingiu um nível de experiência e aprendizagem a ser valorizado. A generalidade dos homens e mulheres que atingem uma certa idade diminuem a sua actividade mental, física e de relação, tornando-se naquilo a que vulgarmente chamamos “velhos”. Tal como Dante expressava na “Divina Comédia”nos primeiros versículos, no meio da minha existência decidi aprender de novo, exercitar o meu corpo de acordo com as limitações próprias do momento, aprofundar a leitura e fundamentalmente comunicar com o mundo circundante.

Tal como a criança de tenra idade aprende e exercita a sua eventual autonomia, procurei a marcha ou o andar a pé como ponto de partida para esta aventura.

Um dos desportos mais aconselhados, para indivíduos jovens e menos jovens, gordos e magros, sãos de espírito e físico ou mesmo doentes em reabilitação, sempre foi “a marcha ou caminhada”.

O contacto com a natureza foi sempre uma das formas de acalmar a mente e instruir o corpo e, isso também foi bem reconhecido em formas de estímulo de engrandecer o espírito humano. Desde a antiguidade o exercício físico foi encarado como essencial na formação do ser humano e este esforço dinâmico no ambiente natural foi alvitrado como desejável. Algumas orientações a reter para o bom caminhante residem em ensinamentos do próprio Platão, salientando que o movimento deva ser uma constante da vida e que a imobilidade total não faz parte da natureza, levando o exercício à libertação dos medos interiores. Alguns autores especialistas de desporto recomendam que os balanços do corpo, com ou sem o esforço próprio, exercem sobre o homem uma acção revigorante como o passeio ou caminhada.

Sobre o assunto marcha e caminhadas surge sempre um conjunto de termos e conceitos em voga, nos tempos actuais que são o trekking, caminhada e pedestrianismo.

A caminhada embora aparenta ser sinónimo de trekking ou tradução do termo anglo-saxónico, pressupõe sempre um regresso no dia ao ponto de partida para passar a noite. Trekking ou travessia é um termo de origem sul-africano, derivando do trek que implica dormir fora, num abrigo ou tenda, aparentando algo do nómada. No trekking o indivíduo segue um trilho, sem escalar, nem alpinismo, ocorre apenas o simples caminhar.

Pedestrianismo é a actividade conhecida mais básica e ao ar livre, tendo sido praticada no Ocidente e no Oriente desde a Antiguidade, individualmente ou em grupo, sendo caracterizada pelo andar a pé, com motivações de ordem vária ou a mera contemplação dos campos ou natureza. No pedestrianismo a dormida em improvisos de abrigo natural ou construído, albergue ou bivaque (tenda pequena) pressupõe uma autonomia de trekking de vários dias.

Este desporto (pedestrianismo) não é competitivo, nem agressivo, pratica-se com poucos custos económicos, sem grandes exigências materiais, concilia o convívio familiar e de amigos, permite alguma fuga à rotina, ao stress, ao urbanismo, aproxima as pessoas, e promove o mais simples e primário da existência humana como a Natureza e o mundo rural. Quem se inicia nestas coisas do caminhar estabelece amizades e intercâmbios culturais, sendo frequente a identificação de grupos de amantes deste desporto. Também, poderemos garantir que ao praticar esta actividade, o meio ambiente assume um valor patrimonial, com a observação da flora e da fauna e a sensibilização do indivíduo e dos grupos para a riqueza incontestável dos recursos naturais e sua preservação.